Publicado em Formação

Principais enfoques do DOCUMENTO 85 DA CNBB

Evangelização da juventude

Desafios e perspectivas pastorais

 

I. Elementos para o conhecimento da realidade dos jovens

“3 .A fé há de ser apresentada aos jovens como um encontro amoroso com Deus, que toma feições humanas na pessoa de Jesus Cristo: “No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande idéia, mas o encontro com um acontecimento,com uma pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.3 Desse modo, estarão em jogo duas realidades: o encontro pessoal com Jesus Cristo e a aceitação de um projeto de vida baseado no seu Evangelho. Essa adesão necessariamente incorpora a realidade em que o jovem vive como conseqüência de verdadeira encarnação cristã.

8 .A evangelização exige testemunho de vida, anúncio de Jesus Cristo e adesão a ele, adesão à comunidade, participação na missão da Igreja e transformação da sociedade.14 Evangelizar implica, em primeiro lugar, proporcionar o anúncio querigmático da pessoa de Jesus Cristo. Em seguida, esta experiência deverá ser aprofundada em grupos de convivência que devem conduzir catequeticamente a uma maturidade na fé e prontidão para ser discípulo e protagonista na construção do Reino de Deus por toda a vida, buscando a transformação da sociedade.”

10. Conhecer os jovens é condição prévia para evangelizá- los. Não se pode amar nem evangelizar a

quem não se conhece. Por esse motivo, iniciamos com alguns elementos das realidades juvenis, buscando conhecer a geração de jovens cuja evangelização se apresenta como um dos grandes desafios da Igreja neste início do século XXI. É necessário ter em conta a variedade de comportamentos e situações da juventude hoje e a dificuldade de delinear um único perfil da mesma no mundo e no Brasil. Além do mais, trata-se de uma situação exposta à oscilação constante, marcada ainda com maior impacto pela velocidade social das mudanças culturais e históricas, com as vulnerabilidades e potencialidades dos jovens, tudo isso confrontado com uma experiência significativa da Igreja quanto à evangelização da juventude.

14. Os jovens de hoje e a Igreja em que vivem são influenciados pelos impactos da modernidade e da pós-modernidade. Alguns elementos deste momento histórico exercem grande influência na mentalidade, nos valores e no comportamento de todas as pessoas. Ignorar estas mudanças é dificultar o processo de evangelização da juventude — o grupo social que assimila esses valores e mentalidade com mais rapidez. Uma evangelização que não dialoga com os sistemas culturais é uma evangelização de verniz, que não resiste aos ventos contrários.

23. O fenômeno religioso que mais chama a atenção, dentro desse novo contexto cultural centrado nas emoções, é o crescimento do neopentecostalismo, que acentua a subjetividade e o elemento afetivo em sua metodologia de evangelização.5 Este fenômeno é mais visível pelo número de Igrejas

pentecostais que nascem a cada dia, principalmente nas periferias das grandes cidades. Com a diversificada oferta de escolha do sagrado, por parte do “consumidor”, a fé é regulada pelo mercado, de modo especial, pela TV. “A religião deixou de representar o espaço da relação do crente com Deus para se transformar em veículo de ascensão social ou em promessa de felicidade plena. Troca-se a elaboração analítica que exige a dor da busca e da reflexão por sessões de   entretenimento religioso.”6

24. A tendência de acentuar os sentimentos, no mundo contemporâneo, tem forte penetração no meio dos jovens e levanta questões importantes referentes à metodologia de trabalho pastoral. Por outro lado, à medida que aumenta o nível de escolaridade dos jovens, aumenta, também, a necessidade de uma base intelectual da fé; caso contrário, muitos acabam abandonando sua fé. É importante lembrar que as duas culturas continuam convivendo juntas: a modernidade, que acentua a razão, e a pós-modernidade, que acentua a centralidade das emoções.

25. Há necessidade de levar em conta os dois enfoques da cultura contemporânea e manter um equilíbrio entre os dois pólos: o racional e o emocional. Emoções, sentimentos e imaginação precisam ser integrados em uma metodologia que tenha objetivos claros. Ao mesmo tempo, a razão deve deixar espaço para as emoções e a imaginação. A mensagem do Evangelho precisa ser apresentada como resposta às dimensões da vida do jovem. A formação deve ser integral, isto é, considerar as diversas dimensões da pessoa humana e os processos grupais.

Perfil da juventude brasileira

 

26. Nossa intenção é considerar a juventude com suas potencialidades para renovar a sociedade e a Igreja. A juventude é a fase do ciclo de vida em que se concentram os maiores problemas e desafios, mas é, também, a fase de maior energia, criatividade, generosidade e potencial para o engajamento.

45. A preocupação com a evangelização da juventude leva-nos, também, a olhar a crescente busca dos adolescentes21 por espaços grupais. Na ausência de uma proposta evangelizadora que corresponda às necessidades dos adolescentes, estes acabam se inserindo nos grupos destinados aos jovens. Neste cenário, muitas vezes provocador de respostas equivocadas para adolescentes e também para jovens, necessitamos conhecer e aprofundar os elementos que marcam a vida destes sujeitos, para que a evangelização possa oferecer propostas diferenciadas, segundo cada realidade.

47. Em nossa Igreja há uma presença significativa de jovens em vários setores da vida eclesial: nas comunidades eclesiais de base e nas paróquias, participando das equipes de liturgia e de canto, atuando como catequistas, em diversas pastorais. Estão presentes também nas pastorais da

juventude, nos movimentos eclesiais, nas novas comunidades e nas diferentes iniciativas promovidas pelas congregações religiosas e institutos seculares.

3. Valor da experiência acumulada da Igreja

 

49. Diante do desafio de evangelizar a juventude contemporânea, a Igreja não está começando do zero. Há um caminho histórico percorrido por ela que revela uma herança muito rica. Há uma corrente através da qual uma geração de jovens e agentes evangelizadores adultos passa a experiência acumulada para outra. A Igreja Católica é uma das organizações que têm mais experiência acumulada e sistematizada no trabalho com a juventude. É importante resgatar essa experiência, estando atentos aos sinais dos tempos. Em cada época, à medida que mudavam os desafios, os enfoques, os valores e o ambiente cultural da sociedade, a mentalidade dos jovens também mudava. Os jovens são mais sensíveis às mudanças e propensos a aceitar o novo. Tudo o que acontece na sociedade tem seus reflexos na ação evangelizadora da juventude. Os jovens que são atingidos pela ação evangelizadora estão inseridos simultaneamente na sociedade e na Igreja.

II. Um olhar de fé a partir da Palavra de Deus e do Magistério

 

EVANGELIZAR proclamando a Boa-Nova de Jesus Cristo,caminho para a santidade,por meio do serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhão, à luz da evangélica opção pelos pobres,promovendo a dignidade da pessoa, renovando a comunidade eclesial, formando o povo de Deus e participando da construção de uma sociedade justa e solidária, a caminho do Reino definitivo.

 

  1. 1.               O seguimento de Jesus Cristo

 

53. A busca juvenil de “modelos” e “referências” é uma porta que se abre para o processo de evangelização. Aqui está a grande oportunidade de apresentar Jesus Cristo. Contudo, o seguimento de Jesus Cristo não se equipara ao seguimento de outros líderes religiosos ou mestres. Estes podem indicar o caminho e apontar a porta, mas não são o caminho nem a porta. Quando encontramos o caminho, podemos legitimamente esquecer o líder ou o mestre. Jesus Cristo, porém, sendo Deus, é, ele mesmo, “Caminho, Verdade e Vida”. Assim, seguir o caminho é entrar no Caminho, é entrar em Cristo e Cristo em nós, numa profunda “interioridade

mútua”, formando uma como “única personalidade mística”.1“Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

54. Com criatividade pastoral, é importante apresentar e testemunhar Jesus Cristo dentro do contexto em que o jovem vive hoje e como resposta às suas angústias e aspirações mais profundas. “Devemos apresentar Jesus de Nazaré compartilhando a vida, as esperanças e as angústias do seu povo.” Um Jesus que caminha com o jovem, como caminhava com os discípulos de Emaús, escutando, dialogando e orientando.

57. O jovem — assim como todo cristão — é convidado por Jesus a ser discípulo. O convite é pessoal: “Vem e segue-me” (Lc 18,22). Ele sempre chama os seus pelo nome (cf. Jo 10,4).

62. Quem se torna discípulo de Jesus, transforma-se em portador de sua mensagem. Jesus chama o discípulo para enviá-lo em missão. No encontro com Cristo, o novo discípulo sente-se impelido pelo Espírito Santo a anunciar aos outros a experiência que teve com Cristo e como nele reconheceu o Messias, o Salvador. “Como o Pai me enviou, também eu vos envio. Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,21-22). Depois da ressurreição: “Ide, fazei com que todos os povos se tornem meus discípulos” (Mt 28,19).

63. “O jovem é o evangelizador privilegiado de outros jovens.” É uma afirmação repetida em muitos documentos da Igreja. Esta missão só pode nascer do encontro pessoal com o Mestre, aprendendo a ser sempre mais semelhante a Ele. Para evangelizar, exige-se a experiência de ser evangelizado, isto é, de ter descoberto que Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida.

  1. 2.               Igreja, comunidade dos discípulos de Jesus

 

67. Quando evangelizados — com testemunho e metodologia — os jovens se empolgam com a pessoa e o projeto de Jesus Cristo. Por que, contudo, face à Igreja muitos mostram resistência?

Muitos jovens têm dificuldade para entender que eles são Igreja ou não se sentem acolhidos nas

comunidades. Constatamos que a imagem que muitos deles têm da Igreja é de algo ultrapassado, burocrático, e que fala uma linguagem que não se conecta com sua vida. Freqüentemente compreendem- na apenas como instituição e não como a comunidade dos seguidores de Jesus.

Nas cidades grandes, chama a atenção a ausência dos jovens na vida eclesial, de modo especial os de nível social e escolaridade mais elevada, para os quais não há um trabalho pastoral específico. Em alguns lugares, a Igreja se afastou e os perdeu. Advertimos a respeito da necessidade urgente de apresentar missionariamente a verdadeira face da Igreja à juventude e trabalhar a relação entre fé e razão.

71. É importante que os jovens sejam ajudados a entender que as ciências humanas apontam para a ambivalência de todas as estruturas. Por um lado, elas são necessárias. Sem as estruturas não

há continuidade no tempo, e a mensagem original morre. A Igreja é a presença viva do Cristo atuante na história. Sem a Igreja, não estaria viva a mensagem de Jesus hoje e não teríamos os Evangelhos. Através da Igreja, uma geração de crentes passa sua fé à seguinte. Por outro lado, as estruturas se desgastam com o tempo, dificultando a compreensão da Boa-Nova, que está em sua origem. Por isso, há necessidade de renovação contínua.

76. Nas atividades pastorais com a juventude, faz-se necessário oferecer canais de participação e envolvimento nas decisões, que possibilitem uma experiência autêntica de co-responsabilidade, de diálogo, de escuta e o envolvimento no processo de renovação contínua da Igreja. Trata-se de valorizar a participação dos jovens nos conselhos, reuniões de grupo, assembléias, equipes, processo de avaliação e planejamento.

78. O Concílio Vaticano II propõe, como vocação da humanidade inteira, e como meta a ser efetiva e intensamente procurada, a fraternidade universal. Afirma, também, que a revelação cristã “favorece poderosamente esta comunhão entre as pessoas”, e ao mesmo tempo leva a uma compreensão mais profunda das leis da vida social.11 Se a juventude for levada a enxergar uma Igreja que procura ser isso, graças ao caminho que segue, terá menos dificuldade de assumi-la com sua alegria vibrante.

79. É importante falar da Igreja aos jovens como o Mistério que persevera através da história humana devido à presença do Espírito Santo. A Igreja existe não somente para ser um lugar de encontro agradável e de segurança dos que partilham a mesma fé; ela existe para evangelizar, isto é, para anunciar a Boa Notícia do Reino, proclamado e realizado em Jesus Cristo, através de nossas

fragilidades e riquezas.

O jovem necessita que falemos para ele não somente de um Deus que vem de fora mas também de um Deus que é real dentro dele em seu modo juvenil de ser alegre, dinâmico, criativo e ousado.

Pronunciamentos do Magistério sobre a juventude

 

87. João Paulo II, na Christifideles laici, retomou a riqueza do que o Concílio Vaticano II falou sobre a juventude, afirmando que a Igreja tem tantas coisas para dizer aos jovens, e os jovens têm tantas coisas para dizer à Igreja. Este diálogo recíproco, que deverá fazer-se com grande cordialidade, clareza e coragem, favorecerá o encontro e o intercâmbio das gerações, e será fonte de riqueza e de juventude para a Igreja e para a sociedade civil. Na sua mensagem aos jovens o Concílio diz: “A Igreja olha para vós com confiança e amor […]. Ela é a verdadeira juventude do mundo […]. Olhai para ela e nela encontrareis o rosto de Cristo”.

A Igreja vê na juventude a constante renovação da vida da humanidade. A juventude é o símbolo da Igreja, chamada a uma constante renovação de si mesma. Por isso ela quer desenvolver, dentro da pastoral de conjunto, uma autêntica Pastoral da Juventude, educando os jovens a partir de sua vida, permitindo- lhes plena participação na comunidade eclesial.

III. Linhas de ação

 

1a linha de ação: formação integral do(a) discípulo(a)

1 “Um grupo não nasce pronto, nem nasce ‘grupo’. Como a pessoa, ele precisa ser preparado e ‘convocado à vida’. Precisa ser ‘gestado’, para depois nascer como grupo, passar pelas diversas etapas de crescimento até chegar à maturidade. Como a gente, o grupo também morre um dia: alguns precocemente, outros depois de cumprirem sua missão e darem frutos — ‘Se o grão de trigo não morrer…’.

97. O discipulado começa com o convite pessoal de Jesus Cristo: “Vem e segue-me” (Lc 18,22). Na formação para o discipulado é necessário partir de uma formação integral.

Dimensão psicoafetiva – Processo da personalização

 

Sem a capacidade de autoconhecimento e autocrítica, o jovem é incapaz de analisar as situações com objetividade, de administrar os conflitos e de se relacionar com outros de uma maneira equilibrada. Sem esta dimensão torna-se difícil o silêncio interior e o encontro com Deus na oração e a verdadeira conversão.

Dimensão psicossocial – Processo de integração

 

A felicidade do jovem depende da sua capacidade de comunicar-se com os outros, num diálogo que considera e respeita a cultura.

101. A evangelização da nova geração de jovens precisa ir além do nível das idéias e da formação teórica. Não se constrói a comunidade cristã somente com idéias. Há necessidade de descer ao nível da afetividade, de viver relações de fraternidade voltadas para o discipulado.

102. Essa dimensão busca motivar o jovem para o envolvimento na comunidade eclesial. À medida que ele se sente valorizado em suas capacidades, consegue perceber o valor de caminhar com aqueles que partilham da mesma fé em Jesus Cristo.

104. Um dos importantes espaços de formação acontece no relacionamento familiar. Atingida por tantos fatores externos, nem sempre a família é capaz de cultivar valores essenciais para a vida.

O jovem, então, exercitando no seio da família o amor, o perdão, a paciência, o diálogo, o serviço,

vai amadurecendo como pessoa e, enquanto se forma, vai, ele mesmo, sendo portador de valores

em benefício da família.

Dimensão mística – Processo teológico-espiritual

 

106. A dimensão teológica é cultivada no estudo, na catequese e no aprofundamento dos dados básicos da fé. Desse aprofundamento faz parte a iniciação à leitura da Palavra de Deus, do conhecimento de Jesus Cristo e da Igreja. A dimensão espiritual corresponde à experiência de Deus. Isso pode ser feito através de retiros, da vivência sacramental, da oração e do serviço aos pobres. Não basta estudar Deus; é necessário também ter uma experiência de Deus.

Dimensão sociopolítico-ecológica – Processo de participação-conscientização

 

A consciência da cidadania faz ver que todo poder emana do povo e em seu nome é exercido.

Essa dimensão abre o jovem para os problemas sociais locais, nacionais e internacionais: problemas de moradia, saúde, alimentação, má qualidade da educação, direitos humanos desrespeitados, discriminação contra a mulher, violência, guerra, ecologia, biodiversidade. Não se pode pregar um amor abstrato que encobre os mecanismos econômicos, sociais e políticos geradores da marginalização de grandes setores de nossa população. Aqui há necessidade de formar o jovem para o exercício da cidadania e direitos humanos à luz do ensino social da Igreja. Há necessidade de conectar a fé com a vida, a fé com a política.

Dimensão de capacitação – Processo metodológico

 

As habilidades são necessárias para acompanhar as estruturas de apoio para o processo de evangelização dos jovens. Sem estas habilidades, os projetos pastorais não caminham. Pistas de ação

109. Avaliar periodicamente a situação pastoral para verificar se todas as dimensões da formação integral estão sendo contempladas, no processo de evangelização dos jovens, identificando as lacunas a serem preenchidas.

110. Fazer um trabalho de conscientização vocacional, ajudando o jovem a definir e a elaborar o seu projeto de vida, contemplando todas as dimensões da formação.

111. Organizar uma CATEQUESE CRISMAL que, estando atenta à formação integral dos jovens, procure oferecer-lhes, enquanto estão no processo catequético, oportunidades significativas de vivência grupal, de atividades comunitárias, de meditação da Palavra de Deus, de experiência de oração, engajamento nas pastorais existentes nas comunidades etc.

2a linha de ação: espiritualidade

Desafios e princípios orientadores

118. A vocação à santidade e a certeza de que a juventude é um lugar teológico da comunicação de Deus desafiam a Igreja a uma proposta de espiritualidade como caminho que dê sentido à vida, em um constante diálogo com o Pai, através de Jesus, no Espírito Santo. Consoante com os tempos e com as características juvenis, a espiritualidade proposta aos jovens deve contemplar a alegria, o movimento, a expressão corporal, a música, os símbolos, o envolvimento com a vida, a amizade, a convivência, a espontaneidade etc.

120. Para alimentar constantemente a espiritualidade cristã, o jovem necessita encontrar instrumentos, pessoas e momentos que o marquem profundamente, provocando nele o desejo de verdadeira mudança. Estes meios colocam o jovem num processo constante de revisão de vida e de discernimento vocacional diante de Deus e diante do mundo.

121. A oração pessoal: o diálogo pessoal, íntimo, profundo com Jesus Cristo, no Espírito Santo, nos fortalece na dignidade de filhos diante do Pai. O jovem é criativo quando se sente à vontade com Deus e amado por Ele. Olhando para Jesus, que não se cansava de rezar ao Pai, principalmente nos momentos de maiores decisões, o jovem se sente motivado a fazer o mesmo.

122. A oração comunitária: nem sempre é fácil rezar com os outros, mas sabemos o quanto isto é importante para a espiritualidade cristã. Em comunidade, eleva-se a Deus uma voz uníssona.

Juntos louvamos, pedimos, agradecemos, choramos, cantamos, silenciamos. Em comunidade,

apresentamos a Deus os sucessos, as fraquezas, os sonhos, as lutas do povo.

123. A participação na comunidade: desde o início da História da Salvação Deus forma um povo e vai se comunicando com ele, num processo constante de diálogo, convite à conversão e ao compromisso, com promessas de felicidade e fidelidade. A espiritualidade da comunhão fraterna é essencial na vida cristã e todo jovem é convidado, desde cedo, a fazer esta experiência fundante da fé através de seu envolvimento nas diversas responsabilidades assumidas na comunidade.

124. A Leitura Orante da Bíblia (LOB): é um método que vem de antiga tradição da Igreja para ajudar no estudo e oração da Bíblia. Ele contempla quatro passos: leitura, meditação, oração e contemplação da Palavra de Deus. É também chamada de Lectio Divina. Deus, querendo deixar registrado na história todo o seu projeto e sua vontade, serviu-se de várias pessoas para escrever as experiências, as maravilhas, as quedas, as lutas, as fraquezas e as conquistas do seu povo. Quanto mais mergulhamos nas Escrituras, mais nos identificamos com este povo e adquirimos entendimento do que somos, para onde vamos e o que devemos fazer.

125. A vivência dos sacramentos: de maneira toda especial encontramo-nos com Jesus na celebração dos sacramentos. O jovem, batizado, desejoso de se tornar adulto na fé, descobre, através da preparação e da celebração do sacramento da Crisma, uma ocasião de receber os dons do Espírito Santo e de ser ungido, isto é, consagrado para a missão. É importante que esta preparação

leve o adolescente e o jovem a ter uma experiência comunitária da fé! Animado porque a Igreja

reconhece este grau de maturidade, o jovem se alimenta constantemente da misericórdia de Deus

e do Pão descido do céu. O sacramento da Reconciliação, preparado de maneira adequada e jovial,

é capaz de envolver e regenerar aquele que, nesta fase delicada da vida, se sente bastante agredido,

atormentado, seduzido por tantos contra-valores da sociedade comodista e hedonista. Deus, que

perdoa, também oferece um alimento eficaz ao jovem fraco e frágil: o Corpo e o Sangue de seu

amado Filho Jesus. A evangelização da juventude precisa ter um coração eucarístico!

126. A devoção a Nossa Senhora: o reconhecimento da presença materna de Maria se desenvolve a partir das celebrações litúrgicas e das diversas expressões da piedade popular. Entre elas destaca-se a reza do terço, com a qual, enquanto o jovem se sente abraçado pela Mãe, medita os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus.

127. Os diversos encontros espirituais: nossa tradição eclesial comprova o valor perene de momentos especiais para os jovens e com os jovens, cuja finalidade é a formação e a espiritualidade. Encontros, jornadas e manhãs de formação são capazes de congregar muitos jovens interessados em encontrar algo mais profundo, desafiador, envolvente. Palestras bem ministradas e o clima de amizade são capazes de mexer com a vida dos jovens dando-lhes rumo, segurança, serenidade. Os diversos tipos de retiros, vigílias, celebrações provocam nos jovens grandes questionamentos e desejo de mudança de vida, principalmente quando são confrontados com a pessoa e a proposta de Jesus Cristo. Estes momentos devem ser bem organizados e conduzidos, de maneira que as várias dimensões da vida sejam contempladas, e não se tornem demasiadamente emocionais ou reivindicativas.

128. As leituras e reflexões: são de grande valia as leituras teológicas, espirituais e documentos da Igreja como instrumento para o fortalecimento e o crescimento da fé. A leitura da vida dos santos e de seus escritos pode contribuir enormemente para despertar ou alimentar a vida dos jovens que hoje, mais do que nunca, sentem necessidade de modelos, líderes, testemunhos.

3a linha de ação: pedagogia de formação

Desafios e princípios orientadores

142. Há necessidade de desenvolver uma pedagogia de formação integral que conquiste e envolva os jovens num itinerário que os leve ao amadurecimento na fé, tendo em conta as diferentes realidades e ambientes juvenis, “indo ao encontro dos jovens onde eles estão”.

Prioridade da experiência sobre a teoria

146. No contexto da cultura contemporânea, a formação teórica é normalmente o ponto de chegada e não de partida. O primeiro passo no processo de evangelização é provocar interesse da parte do jovem. Para isso, partimos das suas necessidades e aspirações e usamos uma linguagem que tenha significação para ele.

147. Trata-se de caminhar e dialogar com os jovens, partindo das suas vidas e preocupações, iluminando estas preocupações com a dimensão da fé e incentivando a uma ação concreta de mudança pessoal ou de situações. A evangelização dos jovens exige uma nova linguagem para se comunicar com eles.

148. Integrar o racional com o simbólico, a afetividade, o corpo e o universo. Esta abordagem deve estar presente nos diferentes momentos de formação dos jovens: na vida dos grupos, nas reuniões de coordenação, nos cursos, nos retiros, nas celebrações litúrgicas para jovens e nas atividades desenvolvidas em conjunto. Para esta finalidade é importante a acolhida, a experiência de fraternidade, a utilização da música, dos testemunhos pessoais nas palestras, das dinâmicas e dos simbolismos.

Pedagogia de pequenos grupos e eventos de massa

 

150. Há necessidade de trabalhar em duas frentes ao mesmo tempo, assim como Jesus trabalhava: os pequenos grupos e os eventos de massa.

151. Os grupos de jovens são um instrumento pedagógico de educação na fé. O pequeno grupo, como instrumento de evangelização, foi um dos instrumentos pedagógicos usados por Jesus ao convocar e formar seu grupo de doze apóstolos.

152. Ao mesmo tempo, os eventos de massa exercem uma função importante no processo de evangelização dos jovens. Os eventos de massa têm metodologia variada: celebrações, pregações, testemunhos, teatros, caminhadas, romarias, oficinas, gincanas, conjuntos musicais, trios elétricos, palestras.

154. Não se pode cair na tentação de reduzir a evangelização da juventude unicamente a eventos massivos. Quando estes eventos não estão ligados a um acompanhamento sistemático de educação na fé, os efeitos duram pouco. Há necessidade de envolver os pequenos grupos na fase anterior e posterior para garantir que os eventos de massa se integrem num processo contínuo de educação na fé.

155. A pedagogia de eventos de massa exige uma metodologia diferente daquela de acompanhamento dos pequenos grupos e da pastoral orgânica. Exige preparação a longo, médio e curto prazo e diferentes equipes de serviço.

Níveis de evolução do processo de acompanhamento dos jovens

 

156. O acompanhamento dos jovens passa por diferentes níveis de evolução. Conhecer os níveis de evolução facilita o diagnóstico pastoral, a análise da situação da evangelização da juventude em uma diocese e as lacunas existentes. Um nível superior não elimina o nível inferior.

157. Organizar eventos para os jovens. Neste primeiro nível, o assessor diocesano ou equipe de coordenação organiza eventos para jovens: palestras, cursos de fim de semana, encontros, eventos de massa, passeios. Não há, ainda, um itinerário de educação na fé com acompanhamento sistemático. Este nível é importante, porém, tem suas limitações, entre elas a ausência de protagonismo dos jovens e a falta de continuidade.

158. Organizar grupos de jovens. Os grupos de jovens são um recurso pedagógico na educação da fé e também representam um passo à frente em termos de continuidade. Sem a nucleação em grupos ou equipes de serviço, o assessor é obrigado a acompanhar os jovens individualmente — uma tarefa que se torna impossível em larga escala. A preparação deve ser bem feita e os acompanhantes capacitados para que os grupos sejam um espaço privilegiado de crescimento e de formação. As grandes limitações desta etapa são as dificuldades causadas pelo isolamento dos grupos.

159. Organizar os diversos grupos em rede. As estruturas de coordenação facilitam a organização de uma rede de grupos através da qual é possível deslanchar processos e não mais atividades isoladas. Agora é possível para o assessor e o coordenador jovem acompanhar processos grupais de educação na fé. Os processos são sustentados por diferentes instrumentos pedagógicos: comissões de coordenação em diferentes níveis, acompanhamento sistemático de pessoas, grupos e coordenações, processo de planejamento participativo e avaliações periódicas. As promoções (cursos, retiros, celebrações, palestras, ações, atividades de lazer) são agora integradas e fortalecem um processo de crescimento. A principal limitação deste nível é a falta de objetivos claros que canalizem as forças na mesma direção.

160. Conscientizar os jovens sobre o projeto pastoral para a juventude. Neste nível de evolução há um projeto pastoral compartilhado, ou seja, há clareza nos objetivos, na teologia, na catequese e no caminho a percorrer. Sem este nível de aprofundamento os grupos caem no ativismo e na superficialidade. O projeto pastoral é importante porque determina a identidade da pastoral ou movimento: tipo de pessoa a ser formada, corrente de espiritualidade, imagem de Deus e da Trindade, modelo de Igreja, relação Igreja–sociedade, relação Bíblia–vida, relação fé–vida, fé–política, a maneira de celebrar. Hoje, os processos são muito rápidos e os jovens ficam menos tempo nos grupos e equipes de coordenação. Como resultado, freqüentemente uma geração de líderes não passa a clareza do projeto para a nova geração.

Pistas de ação

162. Promover em todos os níveis de organização uma pedagogia que favoreça o crescimento afetivo entre os jovens.

163. Proporcionar momentos de avaliação para detectar as lacunas pedagógicas na condução do processo de educação na fé dos jovens.

164. Capacitar os assessores e coordenadores dos grupos e equipes de coordenação a partir da pedagogia de Jesus com seus apóstolos: convivência, oração e planejamento em comum.

165. Promover cursos na área da pedagogia da formação para que haja maior profissionalização e clareza metodológica da parte dos jovens e agentes de pastoral que estão conduzindo o processo de  evangelização dos jovens.

166. Incentivar a sistematização de experiências, como instrumento de memória, partilha e motivador de novas experiências.

167. Incentivar o hábito de leitura e proporcionar artigos, livros, documentos, CDs, DVDs, gerando uma biblioteca atualizada principalmente nas periferias e dioceses mais afastadas dos grandes centros urbanos.

168. Organizar, valorizar e acompanhar os grupos de jovens nas comunidades.

169. Valorizar as diferentes expressões culturais existentes como meio pedagógico de formação e envolvimento de jovens (dança, teatro, esporte, grafite, paródias, arte, bandas).

170. Avaliar periodicamente em que estágio se encontra cada grupo de jovens, oferecendo-lhe pistas concretas que contribuam com a sua evolução.

171. Encaminhar com urgência6 a sistematização de uma Pastoral de Adolescentes que desemboque, processualmente, numa evangelização da juventude tomando em conta as realidades psicológicas, biológicas, pedagógicas, teológicas e sociais de uma pessoa dos 12 aos 17 anos.

172. Organizar eventos de massa, envolvendo as várias forças que trabalham com a juventude local (movimentos, pastorais da juventude, congregações religiosas, grupos de crisma, Pastoral Vocacional, Pastoral Familiar, escolas etc.), principalmente o Dia Nacional da Juventude, no último domingo de outubro. Valorizar o Dia Mundial da Juventude, que acontece no Domingo de Ramos, e as Jornadas Mundiais da Juventude.

173. Envolver gradativamente os jovens em atividades próprias da comunidade de fé, favorecendo-lhes experiência de solidariedade, partilha e co-responsabilidade.

174. Organizar experiências significativas para a prática do voluntariado.

4a linha de ação: discípulos e discípulas para a missão

Desafios e princípios orientadores

175. Na evangelização da juventude deve-se estar atento ao conjunto da população jovem e não se restringir apenas àqueles que já são atingidos pela ação pastoral da Igreja. Freqüentemente os grupos de jovens e suas coordenações se fecham dentro de um pequeno círculo de amigos e conhecidos. Os jovens organizados na Igreja são uma pequena parcela da população jovem. É preciso estimular em todos o espírito missionário para que saiam em missão para levar os outros jovens a um encontro pessoal com Jesus Cristo e o projeto de vida proposta por Ele. Esta é também tarefa de toda a comunidade eclesial.

O jovem, como apóstolo de outros jovens, tem um poder de comunicação e de convencimento peculiar. O segredo para atingir os jovens que ainda não foram evangelizados é mobilizar os jovens que já aderiram a Jesus Cristo.

5a linha de ação: estruturas de acompanhamento

183. A evangelização da juventude passa pelo fortalecimento das estruturas organizativas que acompanham os processos de educação na fé.

O desafio de fortalecer as estruturas organizativas

Desafios e princípios orientadores

 

88. A organização é um instrumento importante para a evangelização dos jovens, tanto para as pastorais da juventude como para os movimentos eclesiais. Ela garante a eficácia dos projetos de formação. Sem a organização e a articulação entre si, numa rede de grupos, o assessor se vê obrigado a acompanhar os jovens individualmente. Muitas vezes o assessor adulto ou o jovem coordenador é obrigado a criar tudo sozinho, sem contar com apoio de outros e experiência acumulada. Sem a organização, os grupos se fecham numa visão limitada e superficial. Não se despertam lideranças, e experiências valiosas nascem e morrem. Não se acumulam e não se sistematizam experiências.

191. Participando das estruturas da organização, o jovem desenvolve importantes habilidades de liderança, capacidade de escutar os outros, de superar a timidez e falar em público, de organizar

e comunicar suas idéias de maneira sistematizada, de conduzir uma reunião, de analisar criticamente a sociedade ao seu redor, de motivar e acompanhar processos individuais e grupais, de

planejar e avaliar a ação pastoral. “A organização favorece a formação na ação dos jovens, gera

espaços de diálogo e de decisão para a condução co-responsável de toda a ação pastoral e educa sua

inserção na sociedade para fomentar, a partir daí, as urgentes mudanças de estruturas que se fazem

necessárias.

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